Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Cheech e Chong’

FÁBULA MASCULINA
Por Kiko Dinucci (publicado originalmente no blog SP Marginal)

Definitivamente, os homens temem as mulheres. Esse pavor ecoa por toda a história da humanidade. After Hours (Depois de Horas) de Martin Scoserse se apoia nesse mote e aparece como uma espécie de Alice No País das Maravilhas através da ótica masculina.

Paul, a personagem interpretada por Griffin Dunne, é um ser solitário que desperta nas mulheres um desejo quase maternal, sim, esse homem que trabalha diante da máquina de computador, também tem um coração. E qual a é função das mulheres no filme? Devorar esse coração, devorar o coração do próprio filho, introduzir novamente com suas obsessões o filho de volta ao ventre.

Desde o primeiro contato entre Paul e Marcy (Rosanna Arquette), cria-se um ambiente periculoso tal qual areia movediça, ele a conhece em um café enquanto lê o romance Tropic of Cancer de Henry Miller. Achamos aí um ponto de partida para esse horror, não à mulher, mas sim ao “poder” feminino. Miller é o escritor norte-americano masculino por excelência, conhecido por suas narrativas envoltas de astúcias amorosas. O autor também teria medo de mulher? A única ameaça para Miller é June Mansfield (June é o nome de uma das mulheres de After Hours, interpretada por Verna Bloom), a única mulher que o conquistador não conseguiu domar. Posteriormente esse horror se ampliaria com a chegada de Jean Kronski, artista plástica que entre outras tantas pessoas da boemia de New York teria um caso com June. Chegamos no ponto máximo desse horror masculino, o lesbianismo, o símbolo maior da presença dispensável do homem. Essa relação conturbada entre Miller e June o acompanhou feito um fantasma por toda sua obra.

A citação de Miller no início do filme é um indicador do que está por vir. Marcy se apresenta aos poucos como uma coletânea de medos masculinos, esse medo vai crescendo a ponto de se transformar em paura. Descobrimos com o desenrolar da trama que Marcy era um monstro bem menos perigoso do que Paul imaginava. De qualquer maneira é ela que desencadeia as outras deusas neuróticas, carentes e vingativas.

Mas há no filme de Scocerse uma mulher muito mais ameaçadora, uma mulher chamada Cidade. É ela a primeira a dar os sinais de azares constantes. A cidade que abriga o seu emprego estúpido, o seu lar aconchegante e tedioso, que põe Marcy em seu caminho. Essa cidade-mulher apresenta ainda mais uma faceta, arriscada e perigosa, o SoHo. Se por um lado Paul está adequado aos padrões da vida Yuppie de New York, por outro lado ele é o filhote de passarinho, sem mãe, perdido em outra selva, o SoHo dos artistas. Talvez o contato conflituoso entre Paul e as mulheres do Soho seja equivalente ao choque da explosão Yuppie dos anos oitenta. Essa idéia pode ser representada na cena em que Paul é forçado a cortar o cabelo no clube punk Berlin. Há de ser lembrado também que a dupla de ladrões (interpretada pelos humoristas Cheech e Chong) sempre carregam arte em entre suas bugigangas, trabalhar com arte no SoHo dos anos 80 era um bom negócio.

Como na Alice de Dodgson, Paul de After Hours cria uma teia de sedução, na qual seduz como também é seduzido. Os anseios que cercam todas as personagens são os elementos que dão dinâmica a trama.

As personagens, que cruzam o destino de Paul após Marcy, são doceis, quarentonas, acolhedoras e carentes, mas carregam um imenso sentimento de vingança ao serem desiludidas. A impressão que dá é que Paul tem que pagar pelo mal que todos os homens fizeram a essas mulheres ao longo de suas vidas, alguém tem que morrer. Paul encarna o pesadelo masculino, como se seu falo tivesse que ser sacrificado em nome da justiça feminina.
Rodado em 1985, After Hours raramente aparece na lista dos mais importantes filmes de Scoserse. Olhando atentamente, trata-se de uma obra impar do diretor, tão grande quanto Taxi Driver (1976), Touro Indomável (Raging Bull, 1980) ou Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990).


After Hours
1985
97 min.
EUA
direção Martin Scorsese
roteiro Joseph Minion
produção Amy Robinson
com Griffin Dunne, Robert F. Colesberry, Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom, Tommy Chong, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Richard “Cheech” Marin, Catherine O’Hara
musica Howard Shore
montagem Thelma Schoonmaker

Anúncios

Read Full Post »